Afetos · Das palavras das cartas

de que são feitos os meus mapas…

o que me dói tem um nome que não obedece a mapas:
a memória é um tempo desavindo.

Rui Nunes

Eryck, menino…

dias desses lembrei-me de você como se ainda estivesse aqui e demorei horas para perceber que não… senti a melancolia me tocar como se fosse um toque de pena mesmo. Pena de tudo que não podemos rir juntos, chorar juntos e de nossos silêncios juntos nas poltronas azul desbotadas, no canto da cozinha do DSEI. Lembrei-me de nossas longas conversas no portal que nos unia e de sua reverência de sempre: Selvaaa!

Quando fui separar as tampinhas hoje, para o projeto dos cães, todas as nossas conversas vieram à tona. Traçamos um mapa na mesa e fomos colorindo os lugares… não! Minto. Você coloriu os lugares e era isso que você fazia sempre. Coloria os lugares por onde passava, mesmo que fosse só de passagem. Enchia de cor as pessoas que te conheciam e seus acenos para além da rua de cima me fazia ir embora para casa tranquila, após o fim de cada dia de trabalho.

Menino, menino – era assim que eu te chamava – e seu riso coloria os corredores e meus mapas tortos. A gente teve uma amizade tão genuína e adorável que nem precisávamos falar nada… o seu riso sapeca e a concordância com um menear de cabeça me dizia que pensávamos igual. O menino que cuidava dos dentes dos povos originários tinha o riso de uma criança quando chegava perto de mim. Isso me engrandecia em nossa amizade.

Hoje, percebi que a melancolia é essa insistência em viver esse vazio de você… acho que me perdi nos meus mapas, Eryck… as mensagens não têm mais a resposta com o sotaque que eu amava ouvir e dessa observância, o silêncio traduz a única rota que meu coração segue depois de você ter ido sem me dar a chance do último abraço.

Um dia, em nossos papos risonhos e amenos a gente falou sobre não estar aqui e você falou sobre um poema de Al Berto, que você havia visto em uma postagem antiga do meu blog:

Repara, através dos meus olhos descobrirás como é grande a tristeza do mundo. Apenas isso.
E quando aqui não estiveres, espetarei todas as facas que encontrar nas paredes febris da noite.
Talvez sangre dos pulsos.

Talvez te escreva
Talvez

e é isso que faço agora respondendo a pergunta sobre o colorido das tampinhas e do seu riso: de que são feitos meus mapas? Meus mapas são feitos de saudades, menino. Hoje, imensamente, de saudades de você.

Selvaaa!
Mariana Gouveia

10 comentários em “de que são feitos os meus mapas…

    1. Hoje recebi uma mensagem linda da mãe dele e a mensagem me trouxe até o post. Ela ganhou meus livros – que ele deu de presente – e isso nos aproximou. Uma mãe que ficou encantada pela amizade de um filho lindo gerar tanto carinho. Chorei enquanto vi a lua e mesmo sem saber, sua neblina segurou minha mão. Grazie!

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