Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

09 – sombras dançarinas ondulavam pelas paredes

Minha menina nuvem,

eu queria tanto estar aí, mesmo que em silêncio, no cantinho dos cães para calar meu desconforto nesses dias. Acho que seria meu refúgio – daqueles que a gente tem na infância – que me acalmaria ou me deixaria nessa luxúria da solidão.

Ontem, quando cheguei, havia um casulo no batente da porta, Su! Já imaginou isso? Deixei a porta sem fechar e me enchi de coragem para atravessar a noite e vigiar para Yoshi não passar por ali. Você, talvez diria: não, Mari, tu não fez isso! E eu diria, que sim! E devo confessar, Su, que as sombras dançarinas pela manhã, marcavam a parede com as asas de quem se libertou.

Como você, eu também gosto dos detalhes e mesmo já estando acostumada ver borboletas parir em meu quintal, eu vibrei vendo a madrugada se desenhando no céu…

Sou canceriana, Su – tu sabes – mas fujo do convencional de choros, de lamentos, inerente ao signo… mas, o destino ou sei lá o que foi bateu duro e em alguns momentos é preciso suspirar e encarar o que não pode ser mudado.

Como se muda o nascer e morrer de alguém? Quem entende a natureza das coisas? Como eu acredito em tudo que é força do universo, Su, apenas acato aquilo que é natural, mesmo não sendo ao meu coração.

Antes de encerrar essa carta em que te abraço e agradeço e te mostro o quanto a vida me é generosa, a parede se desenha em asas e com ela te sopro ventos de amor e alguma nuvem dissipará qualquer sombra em teu caminhar.

Mesmo porque, Su, a vida continua nascendo em meu quintal e as nuvens também e meu pai diria: a vida continua e os nascimentos não podem parar porque o mundo pararia.

Beijo,

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

PS: Ah, esqueci de colocar a nuvem da minha noite quando chamei seu nome no quintal.

7 comentários em “09 – sombras dançarinas ondulavam pelas paredes

  1. Gosto imenso da palavra casulo. Tenho na memórias alguns deles. Nossa, eu tive um probleto chamado bicho-da-seda. Hoje as lembranças estão insanas. Isso que dá ficar lendo posts antigos (estou lá por 2013) ao som de Ornella Vanoni e me perdi da realidade. Ao chegar aqui, quis caminhar com vocês duas… mas ficaria atrás, a observar os rastros. rs

    bacio cara mia

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    1. Mentira, que a gente te traria para meio só para ouvir tua risada…. meu pai tinha um espaço para o bicho da seda e até hoje, tenho na memória o cheiro das folhas de amora quando entrava no aposento. Na verdade, meu desejo secreto era libertar todas elas e aqueles emaranhados de fio.

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