Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Há apenas um quadro, retrato fiel, um cenário que recorta a janela por inteiro.

Ana,

Até anteontem era inverno… o mais quente de todos os tempos – dizem as manchetes – e é primavera, Ana! Poderia te dizer que os dias correram ligeiros. Era primavera dias desses e já se vão 365 dias desde então.

Lembrei-me de que faz dias que não nos falamos. eu iria repetir a velha máxima sobre a correria dos dias, mas Ana, confesso que perdi as palavras para falar com você. Ficamos estranhas nessa jornada de tempos que falamos mais de coisas dos outros do que sobre a gente,

Devia dizer que a a lua está divina hoje, que os barulhos dos fogos me lembrou o fim de ano – que se aproxima – e agradeço pelos cães daqui não terem medo deles. Os fogos é em comemoração de um time que foi campeão em alguma das infinitas copas que existem por aqui.

O calor ultrapassou todos os recordes. Tivemos hoje 42º registrados lá pelas minhas 14:00hs. Você poderia imaginar isso, Ana? confesso que estranhei tudo isso. Nem venta no meu quintal. As folhas das árvores nem balançam, mesmo fazendo o tal assobio que minha mãe ensinou.

Há apenas um quadro, retrato fiel, um cenário que recosta a janela por inteiro, nesse fim de tarde quase noite de uma primavera perdida para nós. Há qualquer coisa assim, de vazio, de silêncios amargos, Ana… diria que é a vida. Suspiro e perco as palavras diante da janela enquadrada enquanto as resgas da noite chega.

Talvez, em um fim de frase dessa carta não programada eu declare que ainda te amo, mas que te deixei só muito tempo com as estrelas, e isso é imperdoável. Como pude esquecer algumas datas importantes para nós? Seria a idade chegando e o calendário deixando de ter a importância de antigamente?

É o amor parado, Ana! Sem movimento, assim como o quintal agora, em um calor intenso e nem venta. É o fim da espera, Ana, e o início de um recomeço seu por aí…

Como diz a frase lida em algum lugar que esqueci: rega o teu jardim, pinta as tuas flores, come as tuas framboesas... e quando sair de vez, não esqueça de pagar as luzes e

Beijo meu

Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Scenarium Livros Artesanas
* retirado do texto do livro Poética de Ana Cristina César


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