Leonor,
Eu deveria te escrever em poemas. Usar teus poetas favoritos ou as canções que me lembra você. Mas, eu… às vezes, fico perdida… Devo escrever cartas que sei que nunca irá ler? Postar os envelopes pardos na agência dos Correios sem saber se irá buscá-los em sua caixa postal? O que eu faço, Leonor?
Eu acho que gestei demais a despedida e usei a tag marítima como sinal para você se reconhecer em meus gestos. Mas tenho pensado: será que você não foi inventada por mim? Tudo que vivemos parece pertencer a um passado tão longínquo que parece ser coisa da minha cabeça.
Te perdi, te ganhei, me perdi ou nos perdemos? Lembro-me do tempo em atravessei um campo de capins dourados e você me esperava no topo do morro. A frase ecoou morro abaixo e você com a câmera fotográfica nas mãos registrava meus gestos – e se uma sumisse da outra entre o capim dourado, como seria? – e eu me lembro de te dizer que a procuraria até o fim do mundo. Doce ilusão! O fim do mundo é longe demais e mesmo as cem ideias que usei para te encontrar se perderam em uma praça de Queluz.
Alguém me disse que não podemos encontrar quem não quer ser encontrado — e eu fiquei pensando se era você que tinha esse medo de se perder ou era apenas a promessa de uma fuga que te movia. Confesso que já apaguei mil e quinhentas vezes as mensagens com sua voz e recuperei em tantas outras mil e quinhentas, só por medo de esquecer seu sotaque e o som monocórdico de sua voz.
Na última vez em que nos falamos, você disse que havia andado por minha rua — tantas vezes — através do Google Street e que pensou no pé de trevo de quatro folhas que cultivei como se fosse um tesouro, para depois do portão… E tudo mudou… Você sumiu do mapa e eu ainda procuro por você no meu silêncio. Nas estações, nas gavetas da memória, nas palavras de seus amigos. No topo do morro da Chapada, nas ruas misturadas com as casas coloridas que você tanto amou fotografar.
No resto do tempo, começo a te esquecer e a passo a ler as notícias que saem nos jornais do seu lugar. No carro igual ao seu que passa na rua de cima, no sol de cada dia e até na xícara de café — quer café, flor? — porque eu fico esperando qualquer coisa de extraordinária para recebê-la mais uma vez entre gotas de chuva nessa estação da espera.
É elementar que seja assim. Se passaram mais de mil madrugadas e eu sou todas as janelas e portas abertas, como se estivesse sempre pronta para sua volta. E eu já fui até farol, confesso… Mas, hoje sou apenas essa solidão para o nome das coisas.
Mariana Gouveia
Texto publicado no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

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