Corredores, Codinome Locura

Adie o Natal que o menino ainda não nasceu!

Adie o Natal que o menino não nasceu”! Era sempre com essa frase que minha mãe acalmava nossa ansiedade na espera dos presentes.

Nasci em uma fazenda no interior de Goiás. E nossos natais tinham a magia do dezembro dos contos de fadas. Não tínhamos neve, nem nada tão sofisticado, mas tínhamos a essência da espera para que Jesus nascesse calmo, sereno e as coisas continuassem como tinha de ser.

Dezembro chegava sempre antecipado nos afazeres dos presentes. Não eram embrulhos coloridos e nem brilhantes. Sacolinhas feitas de saco de linhagem, que hoje ainda uso para artesanatos – feitos por nós mesmos – e os presentes variavam entre a colcha de retalho feita especialmente para cada um dos sete filhos, para as noites frias de junho e o paletó de flanela que tinha o mesmo intuito. Os brinquedos, nós mesmo fazíamos com ossos secos pegos no pasto, galhos de árvores e espigas de milho.

A magia do Natal acontecia em nós na construção do presépio – minha mãe era uma artista sem nunca ter estudado para isso – desde os bonecos feito da argila colhida na beira da represa ao capim dourado, a areia fina que ela coloria com tintas feitas de folhas e frutas que buscávamos no cerrado e a fusão das linhas feitas no tear e o saco de linhagem usado para ensacar os grãos da lavoura, usado para montar nosso presépio.

Colhíamos o algodão, tirávamos do caroço e acontecia a magia do capucho se transformar em linhas variadas, e logo depois, tecidos. Coloridos com açafrão, folhas de cebolas e cascas de madeira, que um dia ensino aqui como fazer.

Cada um em sua função de fazer isso ou aquilo. Minha mãe contava a história do nascimento de Jesus com cada detalhe que parecia que ela presenciara tudo. E embora todos os natais a mesma história fosse contada, sem mudar nada, em cada ano era como se fosse a primeira vez que ouvíamos.

O mais esperado era o nascimento do menino Jesus. A noite, sempre estrelada e ritmada pelo caminhar da estrela guia, andávamos entre o presépio se emocionando com a voz de minha mãe que desenhava nosso Natal.

Há 40 anos o Natal deixou de ser contado por ela. A fazenda ficou lá atrás, como num sonho, mas a magia do esperar que Jesus nasça ela conseguiu plantar em mim e em cada um dos meus irmãos. Vivo adiando Dezembro dentro de mim e tento fazer com que o Natal seja todo dia em tudo que faço e quando a ansiedade bate na porta, relembro a frase que ela dizia: “Adie o Natal que o menino não nasceu”, mas quando no dia seguinte, queríamos as sobras da ceia, ela nos lembrava que Natal era todo dia e que a cada manhã podíamos fazer o menino nascer dentro de nós.


Que o menino Jesus seja um eterno renascer em fé, bondade e esperança.

Feliz Natal!

Mariana Gouveia

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