Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

beda – quais os caminhos azuis que sua pele tece?

Não fora o teu olhar a ditar-me o caminho
e seria mais um na guerra dos sentidos
Contigo sinto azul em qualquer céu.


Edgardo Xavier, in Azul como o silêncio

Ana,


Às vezes, eu volto nas noites, em dias que já fazem parte do passado… essa história de guardar os dias nos calendários que não gosto, mas que fica registrado na memória. Nessas horas, eu fico em silêncio e quase não cabe em mim a respiração.

Já te contei sobre sua pele e as veias azuis? lembro-me que quando a vi pela primeira vez – em algum agosto de algum ano – seu rosto escondido na cortina e vi suas mãos. Eu disse que nunca vi mãos tão brancas, com as veias saltadas e o azul fluindo… Pensei: ela tem sangue azul… Só te falei isso tempos depois, quando já conhecia toda sua pele, tecida pelas minhas mãos, nas curvas onde desenhei corações.

Hoje vi o céu e seu azul celeste… fiquei horas a espreitar as nuvens desenhando formas e o vento ia empurrando uma a uma rumo ao sul. A gente sempre falava do sul e de quais caminhos a gente seguiria até lá. Não fizemos isso e nem tivemos tempo de viver o norte. Ficamos com a bússola nas mãos a rir do nosso centro oeste. Era assim a vida com você… leve como o azul e as nuvens caminhando para o sul.

Esqueci algumas datas – você deve ter percebido – e algumas coisas que eram para serem esquecidas ainda continuam aqui. Já parei várias vezes na esquina da sua rua, como se algo me levasse até lá. O moço que agora é dono da casa me deu flores hoje… Disse que sentiu vontade de trazer, já que nunca mais fui lá. Dei um café para ele em troca e ele disse que o pé de laranjas deu flores e que logo teremos frutos. Ele disse nesse verbo mesmo, como se eu ainda tivesse parte nas árvores. Dei a ele mudas do alecrim que plantamos e que nunca deu flores. Não sei porque.

Fiquei buscando na memória esse dia, para ver se a data diz algo sobre nós… não me lembrei de nada, mas isso acontece sempre aqui… é nesses dias que busco Marte nesse azul do céu para chegar mais perto de você.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias azuis e de BEDA.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes  Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso

7 comentários em “beda – quais os caminhos azuis que sua pele tece?

Deixe um comentário