Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

As cartas são passaportes para viajar no tempo.

Pai,

mais um ciclo se inicia a partir de hoje. A gente conta os seus 91 anos e grande parte das lembranças se misturam com as datas do calendário. O dia do santo, a quaresma, os aniversários dos irmãos, o início da plantação, o dia da colheita e tantas outras datas que nos marcaram ao longo da vida. Mas o 1° de junho ninguém nunca esqueceu. O seu aniversário sempre foi dia de festa para nós.

Essa semana, um de seus filhos – meu irmão mais novo que eu, esteve aqui, no meu quintal comigo. Junto com a família, presenciou o voo do Chiquinho, vindo ao meu encontro, conheceu meu lugar que ele tanto lia nos poemas e posts das redes sociais… No suspiro dele, uma palavra me marcou. Ele disse que sou igual a você. Essa história antiga de que te puxei no trato com os bichos.

Ele lembrou, pai… Mesmo sendo pequeno na época, ele lembrou que você separava uma parte da roça para os pássaros. Para mim, tudo aquilo, era magia… Mas aos olhos dele, era oferta. Você “doava” uma parte da lavoura para que os pássaros não atacassem a lavoura toda. Os vizinhos diziam que era bruxaria, enquanto as plantações deles eram atacadas, a nossa permanecia intacta, com exceção da parte ” doada” às aves e bichos.

Sabe, pai… durante o tempo que ele ficou aqui relembramos nossas histórias. Os causos, as festas dos santos e o seu aniversário. Mostrei a ele a sua pedra de amolar que ficou comigo. Perdi a conta dos anos dela. Se ela pertenceu mesmo ao seu avô, deve caber séculos na pedra onde hoje amolo minhas facas de cozinha.

Lembro-me de que ela já amolou tesouras, facões, enxadas e tantas coisas de corte. Ficou comigo quando você se mudou para aí. Só comigo, ela já está a mais de 40 anos. Você dizia que ela conheceu todas as gerações da nossa família. Foi bom falar sobre isso com meu irmão. É assim que a história permanece. O brilho que vi no olho dele me fez acreditar nisso. O olho vagando vendo meu pequeno beija-flor cruzar o espaço entre os bebedouros e as árvores. Um dia, com certeza, ele contará para o filho dele e assim, a semente que você plantou continuará a germinar nos seus descendentes.

Pai, quantos mundos te abraçaram nesses 91 anos? Quantas memórias você carrega no coração? Quantas perguntas minhas você já respondeu? Foram tantas e ainda serão. Desde os porquês lá da infância até às dúvidas respondidas no nosso encontro há pouco tempo.

Você me disse tantas vezes que as dúvidas fazem parte do ser humano e que as memórias são ativadas com essas dúvidas. Disse também que as cartas são passaportes para viajar no tempo. As cartas que te envio desde quando comecei a escrever são os registros dessas viagens. Mais uma vez, desembarco no seu mundo só para te abraçar mais uma vez.

Feliz aniversário!

Te amo sempre
Mariana Gouveia

2 comentários em “As cartas são passaportes para viajar no tempo.

  1. Engraçado, nunca escrevi ao meu pai. Nós dois éramos de diálogos a mesa do café da manhã. Ele gostava de preparar o café, como o nonno. Acho que o repetia. Antes das sete da manhã, ele estava livre das roupas de Superman do mundos dos negócios. Ali na cozinha, ele era apenas o meu pai e conversávamos sobre tudo e nada. Olhando para aquela cena, daqui desse futuro em que está adiante do seu (risos) parece cena de um filme.
    E ao ler-te nesse diálogo com o seu pai, viajei para o passado, e misturei tudo, os nossos mundos e emoções. Grazie por ser esse elo.

    Ps. A minha memória depende dos aromas, rs

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