Tem dias em que acontecem recaídas – acho que falei sobre isso – mas tudo acontece na sala de espera. Há um atraso no tempo, ou eu, no adiantado da hora. Essa mania minha de precipitações.
Eu poderia desenhar essa sala quinhentas vezes e ainda assim ficaria algum detalhe por dizer. Ou prestar atenção.
As cortinas não são abertas totalmente, porque as janelas, nessa hora ganham o sol em pleno peito. As frestas e os fios de luz tentam romper a barreira do tecido sei lá que cor desbotado pelo tempo. Um quadro de Kandinsky dá cor ao ambiente. Rouba a cena, eu acho.
Na outra parede os alvarás, diplomas e essas coisas necessárias, sei lá porque.
No vaso à direita do sofá cor de esponja, uma palmeira mirim que juro ser de plástico. E a secretária na mesa do canto com ar de “coitada, ela é louca” me avisa para eu entrar.
Lá dentro, fico em espécie de bolha. Me falta o ar. Corro para a janela. Meu lugar de decisões. Ela anota.
Me perguntou sobre o baú. Tiro da bolsa o pequeno móvel que me pesa mais nas lembranças do que propriamente no peso.
Primeiro sinto o cheiro. Essa coisa estranha de vidro de perfume vazio. A camiseta com o poema de Ekelöf, dobrada, selos de cartas que não vieram e as fotografias. Registradas em momentos de risos, onde o vento agitava meu cabelo e a subida do morro me deixava com olhar feliz.
Uma, me fez lembrar do dia em que cai da escada. Antes de acontecer, lá está eu, fotografada em risos e no impressionante descuido do seu olhar.
Não preciso dizer mais nada. Ela anota meus silêncios.
Era para ser o desfazer das coisas, mas o grito que eu calo me faz fechar o baú e despedir com o olhar.
Quem sabe amanhã consigo.
Desfazer das coisas é quase um bloqueio de alma.
Falo da canção que escuto lá fora. E ela começa a falar de poesias.
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina
só porque hoje é dia de terapia

Ainda não sei se a janela me exibe algo ou se o sol impede o meu olhar… mas o baú, bem, eu já imaginei nós duas, na cama, a espalhar coisas e a lutar com os cães para não amassar nossas coisas e eu dizendo-te: vou fazer pães.
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e o cheiro de pão invade minhas memórias e eu me lembro do seu baú…
ah, essa imaginação…
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