*Triste, louca ou má
Será qualificada ela
Quem recusar
Seguir receita tal
A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina
Eu era ainda uma menina quando tive que escrever sobre o que pensava sobre ser mulher. Naquela época, o tema não era tão evidente como hoje – ou até era, para as mulheres que me rodeavam e eu, em minha criancice não percebesse. Até então, as mulheres da minha vida eram minha mãe e três irmãs, dona Fulô e a professora Judite – uma pessoa além do tempo que dava aulas em uma escola rural.
*Só mesmo rejeita
Bem conhecida receita
Quem, não sem dores
Aceita que tudo deve mudar
Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar
O texto que escrevi deve ainda estar em alguns dos muitos cadernos guardados em baús ou caixas e que um dia vou tentar encontrar… mas, lembro-me que para além das heroínas dos livros que li eu falava muito sobre a parteira que me trouxe ao mundo, depois de um parto difícil. Uma mulher que não sabia nem ler e escrever, que havia vivido um pós guerra e tinha o ofício de trazer crianças ao mundo e fazia disso uma coisa divina. Entendia de tudo sobre o mundo e me convencia de eu poderia ser o que quisesse. Ali, entre a infância e adolescência descobri as barreiras e as correntes que poderiam impedir quem ousasse mudar o “tradicional”.
*Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só
Bem antes mesmo da tão falada frase: lugar de mulher é onde ela quiser, eu já vivia esse sentimento nas mulheres que me rodeavam. Nasci em uma fazenda rodeada de mulheres que lutavam todos os dias para além das enxadas e foices, que brigavam por seu lugar de fala nas decisões da comunidade ou mesmo dentro de suas famílias feitas de homens machistas e autoritários.
Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima
Daquele tempo até hoje percebo que a luta ainda continua a mesma e que aquele aprendizado me fez ser o que sou hoje. O que aquela menina de 10/11 anos diria para a mulher de agora, nos meus 56, quase 57 anos? Já escrevi várias cartas onde busquei essas respostas e continuo escrevendo elas até hoje. Minha bá me ensinou sobre as palavras e de como escritas ganham voos para além de nós mesmas. E que escrevendo posso representar aquelas que me rodeiam-habitam.
*Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar
Não sou adepta das datas, embora perceba o significado delas e reconheço que a coragem da minha primeira professora em uma escolinha rural, no interior de Goiás ganhou raízes em mim, nas minhas irmãs e nas mulheres que entraram em minha vida em todos esses anos. Ainda estamos gritando para que nos ouçam, ainda brigamos por espaços com lugares de fala e ainda, ainda, ainda…
A mulher que me tornei reverencia a menina que sonhava em contar histórias para o mundo.
*E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou meu próprio lar
A menina daquele tempo sente orgulho das histórias que contei? A minha voz consegue abraçar outras mulheres muito além da data? Ainda busco essas respostas, mas sei que tudo que vivi teve influência de mulheres valentes e conhecedoras de seus poderes. Sou rodeadas de mulheres especiais e vibro com cada conquista delas. Elas são as minas e as manas por quem luto, por quem torço e vibro.
Talvez, eu represente muitas delas em meu espaço… talvez sejam elas que me representam em seus lugares. O que eu, a mulher de quase 57 anos dirá para a de 60/70? Acho que posso dizer uma frase antecipando o que virá: não desista, fique firme e não se cale. Você consegue apesar de tudo! O resto, vou dizer lá, no tempo certo. Vem junto comigo?
Feliz Dia da Mulher Todos os dias!
Mariana Gouveia
participam desse projeto: Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Obdúlio Ortega – Isabelle Brum
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
* Trechos da música Triste, louca ou má, de Franscisco El Hombre.






Que autêntico Mariana!!! Que fecundo! As belas e profundas palavras são simplesmente brotadas do coração. Um abraço da SiL
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Muito Obrigada, Sil! Abraço carinhoso
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Mariana, bom demais te ver em vários momentos de sua vida. Excelente representação e homenagem a todas nós. Força e que continue a alimentar essa delicadeza e firmeza. Sinta-se abraçada mana querida!
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Muito Obrigada, Roseli! Abraço recebido e trocado. ❤
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😍
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Beijo, Cris ❤
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Adorei as fotos, mas a narrativa me fez viajar no tempo, pensar em todas as mulheres das quais sou feita. Aqueceu o cuore, cara mia…
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O seu cuore aquecido aquece o meu ❤ Grazie
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Nice post
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Thanks!
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