Caderno de Notas · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

É meia noite no fim dessa página.

Para eliminar o sofrimento, elimina-se a memória.
Uma cirurgia aparentemente simples, única solução.
Só que eu não consigo, tudo é vivo dentro de mim”

Ignácio de Loyola Brandão

Querida minha,

As minhas mensagens, na milésima tentativa vagueiam como se oscilando entre palavrões no quintal, pudesse te alcançar. Como seu nome fica tateando as paredes parecendo fuga? E você, sendo ausência dentro do vestido solto todo de poá?

O amor é esse vento de inverno. Revolve as folhas no quintal e causa encantação aos seus olhos quando o sépia o invade. Já te contei dos diferentes formatos das folhas daqui?

Invento os verbos enquanto o relógio atinge o ápice da noite e rabisco mais uma vez seu nome dentro de um coração mal desenhado.

É meia noite no fim dessa página. Há uma réstia de luz invadindo o espaço da cortina lilás. O dia, daqui a pouco, renasce e fica esse amargor na boca como se o ontem fosse apenas uma parte a mais do que não vivi.

Meia noite é quase um poema e nas paredes tateadas rastreio impressões tuas, de um tempo em que nunca esteve aqui.

Os relógios do tempo moderno piscam em uma luz azulada. Você sabe que de vez em quando chove aqui e as gotas cantam canções da minha infância? E que os ipês florescem fora do tempo em algumas noites fora do tempo?

O inverno não amadurece no tempo aqui, minha querida… Ultimamente, ele tem chegado fora da estação e causa arrepios na pele, esse vento que canta lá fora…as flores – que antes se abriam no cerrado – moram no meu quintal e invade a varanda com suas garras e o perfume suave do que amarela a manhã – que já surge além do horizonte – enquanto percorro a casa inteira e seus aposentos vazios de presença.

Há ali, no canto, a estante recheada de livros e cada um traz a história descrita, vivida e sentida. Há os bibelôs imóveis – as corujas e o galo de Barcelos entre as xícaras com as borboletas pousadas, inertes esperando o amanhecer.

A solidão e sua negritude na escuridão me lembram a frase do meu pai que dizia que “é no ápice da escuridão que o sol nasce” e ele vem em ritmo de solicitude. Na esquina, o moço da reciclagem canta sua canção de amor que nunca acaba. A solidão é essa moça com vertigem e cheia de incerteza.

A curva entre o canto e o pé de amora imprime no muro um coração às avessas e o musgo seco do tempo das chuvas detalha imagens que não sei quais são, mas parece que conheço de algum tempo. A meia noite, é quase o que antecede o dia. O relógio parece até que faz pausa quando no ápice da hora, o instante se faz.

Deparo com a minha figura insone no espelho do corredor e vejo ali, na estranheza da humana que apenas se recolhe em saudades… de tudo que não vivi.

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
Scenarium Livros Artesanais

Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

8 comentários em “É meia noite no fim dessa página.

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