Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

“Acorda, joga água nele!”

Pai, acho que você iria se orgulhar de mim.

Talvez, você em sua rotina de menino que sonha e vê a lentidão dos dias em sua cadeira de rodas nem imagina que sua filha escreveu mais um livro.

Eu te contei anos atrás sobre Corredores e vi seu olho atento à minha história e vi sua afirmação dentro dos momentos.

Pai, grande parte do que escrevo vem do que aprendi durante os caminhos. Não é só juntar letrinhas e cavoucar memórias, é desenhar instantes e com eles o apontamento de direção.

Descobri hoje que ontem, o moço que fez com que com que eu me apaixonasse pelo rádio se foi. Você e minha mãe dizia que se eu escrevesse as histórias que declamava para vocês eu iria ser contadora de histórias.

Zé Betio era a voz no velho motor rádio e seu riso diante do bule de café feito fazia com que a madrugada soasse vibrante nas manhãs.

” Acorda, joga água nele, dona Maria!” E ali, discorria sobre o galo a cantar, a vaca a esperar pela ordenha.

Eu poderia escrever sobre isso e aquele homem que lia as cartas que a gente enviava, hoje, a voz se transformou em restrospectivas …

As canções que você queria ouvir ganhava tons dentro da resposta à canção: 🎵🎶 quem é… 🎵

E o locutor a responder: é o Zé Bétio!

Pai, hoje, caminho pelos Corredores… Os mesmos que detalhei como se fizessem parte de nossa história e que você apenas suspirou e enumerou nomes dos quais nem me lembrava.

Afinal, como o locutor dizia a vida está logo ali, para ser vivida.

Você é essa criança levada pelas mãos enquanto realizo sonhos. E levo comigo a certeza de que se orgulharia de mim, não pelas palavras que espalho feito sopro de vento, mas sim pela delicadeza de ainda lembrar 41 anos depois do homem que me fez apaixonar pelo rádio.

Tenho certeza de que você tiraria o chapéu em sinal de reverência a quem fez parte de nossa história…

E é o que faço, pai.

Te amo!

Mariana Gouveia

4 comentários em ““Acorda, joga água nele!”

  1. Sabe, eu tenho uma mãe. Uma mãe assim…muito mãe! E um dia esta mãe me disse, perguntou, se podia, se lhe era dado o direito de escrever sua história. Então ela escreveu. Aos oitenta anos. E eu editei e fiz o prefácio (coisa ínfima perto do manancial de histórias que ela me proveu). Passei para a família toda. Não sei se entenderam (entendo até hoje que não mas…paciência e paciência). Modos que acho, talvez, que vos entendo. Este negócio de amar não é do caralho? Eu acho. Amei este outro texto vosso. Infinilhões de abraços.

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    1. Eu adoraria ler o que ela escreveu. Mãe é essa delicadeza diante da vida. Você, corintiano – o voador – Sabe como é essa coisa de amor. Dos mais diversos.
      Abraços retribuídos em seus infinilhões.

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  2. Mari querida. Cá estou eu em mais uma madrugada não dormida e me deparei com este belo e emocionante texto seu e gostaria de lhe fazer um pedido.

    Poderia a minha pessoa postar este teu texto em meu blog na categoria: Novos Autores?

    Estou a vasculhar linhas novas que toquem a mim de certa forma para também mostrar a outros linhas que tanto falam.

    Espero que a resposta seja positiva.

    Grande beijo a você!

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