Oi, pai.
Eu vim dar notícias de Junho. Maio passou tão ligeiro. Nem sei se você percebeu os dias. Mas Junho aqui chegou quente. E com seu aniversário, pai. E sigo o ritual de todos os anos. Faço a oração para Deus te proteger e meus pensamentos voltam para Junho. De todos os meses, Junho é o que mais me toca e você sabe o porquê.
Eu sempre me lembro da minha infância, pai e tudo que me marca nesse mês são as festas juninas. A alegria com que nós festejávamos os dias, era especial. Além da festa por si só, os rituais que você seguia me leva hoje a repetir quase todos eles. A devoção cristã e a fé que te fazia levantar o chapéu sempre que pronunciava o nome de qualquer um deles.
Logo de início, o dia dos namorados envolvia laços e simpatias. A reza para que Santo Antônio nos trouxesse maridos bons. Ainda me lembro de colocar a faca na bananeira para que no dia seguinte surgisse o nome do amado escrito. Hoje sei, que tudo aquilo era apenas para enriquecer nossas histórias. Os doces feitos durante a semana que antecedia o dia 13 enchiam de cheiros nossa cozinha. O mamão ralado, o queijo para o doce de bolinhas, os pães sendo assados no forno feito por você. Os biscoitos de polvilho…ah, pai. Ainda hoje sinto as especiarias como guindaste do que vivi.
Junho por si só era frio. E parecia que você conseguia esfriá-lo mais na véspera de São João. O dia inteiro na feitura da fogueira. A mandioca e a batata doce escolhida a dedo para assar. Era como se fosse Natal e suas histórias sobre o batismo de Jesus ao redor da fogueira criasse em mim e nos meus irmãos um roteiro sagrado.
Sempre admirei tua fé. E na noite de São João você manifestava ela de uma maneira que nos assombrava. O atravessar as brasas descalço sem queimar os pés. Apesar de saber sempre que isso acontecia e repetia todos os anos, era o ponto alto da noite. Lembro que eu contava para todo mundo teu feito e quando ia dormir ficava a imaginar tua coragem. Meus pés ardiam na coragem que eu não tinha de fazer o mesmo. Seguindo os rituais nos levantava bem cedinho para o banho no rio. Como se fosse um batismo mesmo. E o frio ficava sempre em segundo plano. O que mais me recordo era a maneira de olhar na bacia e ver, se na sombra refletida havia duas orelhas. Se não houvesse, era sinal de que morreríamos durante o ano. Graças a Deus nossas orelhas sempre estavam intactas. Mas você conhecia sempre alguém que no ano anterior não havia aparecido uma das orelhas.
Estou aqui a escrever, pai e Junho passa e repassa todinho na minha frente com seus cheiros, seus frios, seus rituais e encantos. Fechávamos com chave de ouro com o santo pescador. E em sua doutrina religiosa nos ensinava que mais importante do que ganhar o peixe, era aprender a pescar. São Pedro era a fé viva do dia que quase fechava o mês e eu quase nasci nesse dia. Mas, isso, é história para outra carta.
Hoje, anos depois, Junho me desenha uma pescadora de sonhos. Mas, também uma realizadora deles. O mês começa hoje e já o vivi inteiro aqui. Você e tua fé que te mantém vivo, continua elevando os olhos pro alto ao citar os nomes dos santos e embora uma cadeira de rodas te prenda, com seus olhos atentos você viaja vida afora.
E como nas cartas que já trocamos tantas vezes, fecho essa desligando o rádio. A vida passa rápido, as coisas vividas já foram vividas e como você mesmo dizia quando eu era pequena:
– Vamos embora cuidar da vida.
a bênção, pai.
Mariana Gouveia

Me tocou ainda mais porque meu pai também fazia aniversário esse mês. Fazia…
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Grata, Lella. Sei o quanto essa dor machuca. Que seu pai tenha dias felizes onde estiver. beijos
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Bah, um bah bem suspirado
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Tchê! Beijos
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