Talvez a minha grande frustração seja não ter aprendido andar de bicicleta.
Era meu sonho, aquela toda rosinha, com a cestinha na frente. Uma só minha!
Mas como os irmãos eram tanto, e naquele ano a colheita não havia sido tudo aquilo que meu pai esperava o que apareceu foi uma imensa – aos meus olhos de menina – vermelha, sem acessórios e categórico meu pai disse que era de todos, o tal presente mantido em segredo até a caixa se abrir.
Meu irmão mais velho já saiu em disparada e os outros correndo atrás marcando a vez na fila. Éramos sete, ao todo,sem contar nos meninos dos empregados que viviam mais ali com a gente do que na casa deles.
No fim do dia, ainda não chegara minha vez e quando chegou, não se podia mais pedalar porque já era noite.
No dia seguinte, nova tabela de uso foi feita e eu, lá pelas tantas depois do décimo. Mas na minha vez, ninguém dos mais velhos podia me ensinar e o pedal era longo para minhas pernas curtas.
Rompi de vez meu desejo de andar nela. E quando via os meninos de joelhos ralados dos tombos, aí que não mais queria nem passar por perto. E meu nome nunca mais foi pra lista.
Ela, coitada, foi abandonada tão logo chegou outro presente mais novo. A bola.
Ficava ali indiferente, encostada embaixo de uma árvore, à espera
E deixou de ser meu objeto de sonho e passou a ser meu objeto de desdém.
Quando em tropel, eu passava por ela, montada no meu cavalo eu ainda,esnobava, ela ali, inanimada…
Autor: Mariana Gouveia
Carta à Janeiro
Ele é muito real.Nem tão feio quanto dizem e nem menos assustador do que pensávamos. Mas descontínuo e mais intrigante que o telescópio newtoniano. Há tanta ainda, mágica no ar, que eu poderia sufocar.
Agora, chove manso, o aroma que se desprende das folhas do esbelto eucalipto, invade as janelas que entardeceram de asas abertas. Só assim te escrevo. Quando o vento ganha algum perfume.
Por falar em árvores, as que foram plantadas por toda a extensão da minha rua que tem nome de Lagoa, gosto de destacar, floriram.
Uma vizinha palpiteira deu de me chatear dizendo que não eram plantas de florir, mas esta semana ao abrir a janela, alí estavam sorrindo rosa-claro. Eu ralharia-lhe o engano, não fosse seu sumiço deveras oportuno. Cheguei até a pensar que flores eram seres extremamente vingativos e de audição apuradíssima. Não fosse pela chuva delas que tomei numa sexta-feira destas passadas, indo ao trabalho. Uma região de árvores centenárias. Ventava fresco e as florzinhas amarelo-ouro das altas Tipuanas iam desprendendo-se de seus galhos, quase que em câ…me…ra len… ta, e caindo por cima da vida da gente que passava. Por Deus, quase cantei o Hino Nacional! Há coisas que só acontecem neste país. Penso eu, em minha humilde bagagem de quem só visitou Piraporinha do Bom Jesus.
Dalí em diante, pensei que em Janeiro eu seria feliz. Não que já não seja. Mas não é desta felicidade amiúde que eu falo. É bem outra. Ando até a conferir a sinastria, porque acredito que entre as doze constelações, uma combina com a minha.
Reformei algumas esperanças. Inventariei sonhos antigos por ordem de importância, não data. Comprei selos. Escreverei para longe e para aqui do lado. Só pelo capricho de dar mais poesia à vida dos carteiros.
E se o amor inquilino quiser entrar. Eu deixo ficar.
Zidna Nunes Ou Ziris

