Lunna Guedes

Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.

Sexta-feira e amanheceu sem energia elétrica. Um estrondo na madrugada chamou a atenção da vizinhança. Um caminhão desgovernado atingiu alguns postes da região, algumas casas e o bairro inteiro ficou sem luz.

Nos últimos dias isso ficou rotineiro devido às fortes chuvas. As chamadas tempestades de verão ainda dentro da primavera. Engraçado como a falta de energia faz com que o silêncio me faz ouvir melhor o que acontece nas casas vizinhas.

Um bebê recém-nascido chora, o gato que vive atravessando o muro desafiando a lógica de andar sobre os cacos de vidros colados nele – ideia de minha sogra quando o terreno ainda era dela – mia como se pedisse ajuda. Yoshi late e tenta espantar o gato… quase nunca dá certo.

A menina que mora de frente reclama do calor e do uniforme que não foi passado, enquanto a avó repete o mantra de sempre: eu avisei. Devia ter feito isso ontem. Consigo ouvir até os sons da rua de cima. Lá, tem um pica pau que tenta há meses fazer um buraco no poste. Ouço o toc toc e preparo a máquina fotográfica, porque já conheço o ritual dele. Logo estará aqui no poste da frente de minha casa também. Dessa vez, são dois, que se equilibram enquanto tentam a sorte de todo dia.

Os pássaros se misturam nos chilreios e alguém da casa da esquina reza junto com o locutor da rádio que tem um programa evangélico. Logo mais acima um carro buzina e mais alguém lamenta o calor. Ainda é cedo e os homens da empresa de energia parecem não ter pressa.

Ouço falarem do motorista do caminhão, que segundo alguns estava bêbado, enquanto outros citam um mal súbito. A casa da esquina da rua de cima ateve seu muro derrubado e a vozinha me pergunta quem pagará pelo prejuízo. Não sei responder e retorno para casa.  O sol já invade o quintal e o vem dos carros parece maior hoje, na minha rua.

No céu, nenhuma nuvem e o barulho da batida do bico do pica pau na madeira dura quase a manhã inteira. Não tem como não lembrar do desenho famoso… Converso comigo mesma sobre como a energia elétrica move a vida de toda uma cidade. Lembrei-me do tempo das lamparinas e do lampião. A carne era frita e enlatada para durar meses, ou seca como se fossem roupas penduradas no varal. Outros tempos.

Debaixo do ipê, confiro os bordados da encomenda enquanto tudo já está quase sem bateria. Ouvi a resposta de um dos homens para alguém que perguntou sobre a hora do retorno da luz e o “as quinze horas” me preocupou. Confiro mais uma vez se retirei todos os aparelhos da tomada e saio para meu compromisso, que não pode esperar… quem sabe, à noite, quando voltar coloco a casa toda no lugar.

Mariana Gouveia

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