Corredores, Codinome Locura

Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.

Era como escrever poemas na pele dela – usar os dedos como tinta e amanhecer lilás depois da madrugada intensa – pintar devaneios entre a nuca e o cabelo. Caçar a solidão que existe na menina daquele olhar.

Tatear a pele, esculpir vontades e ir decorando textos obscenos que ela diria se estivesse aqui. Citaria Anaïs Nin, se não misturasse os poemas, ou apenas ficaria em silencio para ouvir a respiração.

Olhou a mesa com as coisas banais. A panela preta que era da mãe. Virou objeto de decoração, ali, no mesmo lugar onde a ama todo dia. A bandeja com os medicamentos que toma. Isso a fez lembrar que era dia – hoje – de ir buscar mais.

O pacote de pão. Riu ao se lembrar do pão que gerava uma longa conversa entre o pão daqui e o pão de lá.

Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.

Veio a vontade absurda de jogar tudo fora. Fazer aquelas cenas de filme. Conteve-se.

Voltou a desenhar rotinas no corpo dela. Sabia de cor os caminhos todos. A textura, o convite da boca. O olho de fome e essas vontades todas.

Era como escrever poemas na pele dela. Era apenas a cadeira na solidão vazia.

E no silêncio de minhas palavras ela quis ir.

Mariana Gouveia

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