Divã

Era uma vez, a solidão dos cantos das aves.

Há solidão que é como um pássaro fixo na árvore sem folhas… os galhos a pender como garras a invadir o espaço e a alma a ouvir a canção que toca ao longe.
A estação invade a tarde e o coração ocupado demais para amar.

Há dias em que caminhamos para dentro da gente, refazendo caminhos, desenhando novas histórias .

O outono despertou aqui e as folhas caem como se ficar ali, na árvore fosse penoso demais e o chão fosse o aconchego do colo. O outono aparece nesse sábado morno quase às vésperas do inverno, que não virá também – eu sei.

As horas de fim de tarde trazem com elas um vento frio com o qual não acostumo nunca.

Há risos de crianças na rua, as pipas bailam no sol quase morrendo e o pássaro a gorjear na árvore morta, como se quisesse companhia enquanto descubro que seu canto pesadamente no galho, em um céu quase cinzento, quase noturno a anunciar chuva, e palavras que fogem dentro de mim só são ditas na solidão dos cantos das aves. Solidão é uma ave a pousar na árvore morta.

Mariana Gouveia

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