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Tentação ou tentador – Conto Erótico

Um passo depois do outro… apressados como os ponteiros das horas e cheguei à esquina. Enquanto esperava o sinal abrir, acusei cansaço e quase me arrependi de ter aproveitado cada segundo para fazer compras. Tentei trocar as sacolas de mãos, mas não resolveu.

— Deixe-me ajudá-la.

Reconheci a voz que chegou acompanhada de mãos, recolhendo as minhas sacolas… fazendo trepidar o coração dentro do peito. Era o homem em quem eu esbarrava nos corredores da Faculdade. O lendário filho da Santa, que não se importou com a minha falsa recusa.

— Não é necessário…

Quando dei por mim, seu passo avançava por cima da faixa de segurança, como se adivinhasse o meu destino. Precisei apressar o passo para juntar a ele e a cada nova tentativa de pegar de volta as minhas sacolas, ele reagia, erguendo-as numa altura impossível para mim. Percebi que ele se divertia e reagi magoada, feito menina que perde um balão.

Não sei quem seguia quem pelas calçadas, mas sempre que possível, espiava o corpo dele e sentia vontade de me benzer, ao me lembrar da história que corria de boca em boca. A mãe, com dificuldades na hora do parto, entregou a criança nas mãos da Santa. Pensei em milhões de possibilidades. Uma imagem num altar improvisado no quarto ou a Padroeira na cidade, sendo carregada em procissão. E não pude deixar de pensar na infância do menino, na condição de filho da Santa. E agora, feito homem e tão bonito e com um sorriso tão largo, que me fazia passar mal.

Ao chegar no portão de casa, me atrapalhei com a bolsa e não conseguia encontrar as chaves. E quanto mais revirava, mais nervosa ficava e olhava para aquela calma inabalável e me sentia a pior das devotas. Fechei os olhos e pedi ajuda para a minha Santa protetora. E pronto: a chave apareceu, como por milagre. E a mão dele — tão forte e firme — esbarrou nas minhas ao tocarmos juntos a maçaneta.

Agradeci, esperando que ele me devolvesse as sacolas e fosse embora. Mas ele ficou lá parado à espera de um convite que eu não pude deixar de fazer. E quando dei por mim, lá estava o homem colocando as sacolas de compras feitas no supermercado, ficando com as minhas calcinhas em suas mãos. Quase desfaleci — minha nossa senhora das crises. Claro que ele não tinha como saber que eu havia passado na loja de lingeries e comprado algumas peças. Mas por que razão ficou justamente com aquela pequena sacola de papel em mãos?

Respirei fundo e agi… fui e voltei do quarto, onde deixei minhas calcinhas novas e ao voltar, achei melhor oferecer um café. Era o que me restava a fazer, depois de tudo. Liguei a cafeteira sob o olhar atento e matreiro do Filho da Santa. E confesso que não sei se foi ele quem disse “sem açúcar” ou se fui eu quem fez a pergunta enquanto decidia entre o ristretto e o rome.

Xícaras em mãos e eu a fugir do olho dele. Havia alguma coisa no ar — podia sentir e era forte. Eu nunca fui tímida, mas estava insegura, trêmula e toda errática. Dizia as coisas mais impróprias, absurdas e ele se divertia com os meus desacertos. Um verdadeiro desastre e eu quase recorri à minha Santa. Desisti da ideia ao pensar que talvez fosse a mãe dele. O pensamento me fez arregalar os olhos… e ele sorriu, como se adivinhasse o meu pensamento.

— Que tal você cozinhar para mim, hoje à noite? Eu chego às sete, está bom para você?

Eu não me lembro de ter concordado… A única lembrança que permaneceu em mim pelo resto do dia foi do seu último gesto: fechando o portão e deixando um aceno no ar… E pelas horas seguintes, o meu coração acelerou descompassadamente. E piorava quando eu pensava nele…e vinha a bendita imagem da minha Santa — que talvez fosse a mãe dele —, em mente. Como eu queria me libertar daquela história. Esquecê-la. Não sabê-la.

Sentia uma espécie de taquicardia que começava no meio do peito e se espalhava por todos os cantos do corpo. E eu ainda tinha que preparar um jantar. Fui para a cozinha e depois de tentar pensar um cardápio — sem sucesso — me lembrei do que dizia a minha avó enquanto picava as ervas para a massa que ela mesmo havia feito e deixado descansar sobre a toalha enfarinhada: “Cozinha primeiro no coração porque cozinhar é como fazer amor… É preciso sentir prazer”.

Decidi repetir a receita da minha avó. Eu já tinha feito aquele prato milhões de vezes e o molho pesto era uma das minhas especialidades. Colher o manjericão a poucos minutos do preparo era o segredo e quando ele suspirou depois da primeira garfada… percebi que havia acertado.

O Sauvignon Blanc que ele trouxe combinou perfeitamente e me fez mais leve depois da segunda taça. Fomos para o sofá da sala e quando ele se aproximou de mim, não recuei…

As mãos dele alcançaram o meu pescoço, ele se inclinou e o beijo que tanto imaginei… aconteceu. Pareceu interminável e eu quase perdi a consciência. A boca caiu sobre o meu pescoço, na fenda da blusa, alcançando os seios, provocando uma espécie de devaneio…  

Ele revirava a minha pele, descobria lugares inexistentes até então… e antes que eu me perdesse de vez, ele me conduziu pela mão até o quarto e caímos juntos na cama. Lembro de ouvir o riso dele tocando a minha tatuagem de dente de leão como se fosse um sopro e depois disso, ouvi o meu próprio riso ou grito, não sei.

Acordei e lá estava ele… ao lado e fiquei a admirar seu corpo escultural e me lembrei da lenda que o envolvia. Vasculhei seu corpo em busca de respostas, tentando imaginar qual santa o havia criado. Enumerei muitos nomes em minha mente e só consegui pensar: bendito seja o teu fruto. Mas tinha dito em voz alta e ele, recém despertado e fui obrigada a falar a respeito da história que corria de boca em boca havia anos e mencionei Shakespeare — “o tentador ou o tentado, quem peca mais? ”  E a gargalhada dele ecoou pela casa inteira e até hoje mora nas esquinas do meu corpo por onde andou o filho da Santa.

Mariana Gouveia
Conto erótico publicado no livro:
Na esquina com o filho da Santa
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