A boneca eu havia ganhado de minha mãe. Feita a mão mesmo. De tecido preto.
Minha mãe era sábia. Desde cedo já nos queria colocar a par da beleza das diferenças. Era Maricota.
E eu odiava quando meus irmãos a chamavam-na de boneca preta… para mim ela era a minha Maricota. Que me acompanhava quase sempre em todo lugar que eu ia. Eu ficava num canto, tentando arrumar os cabelos dela, que até hoje nem sei como minha mãe conseguiu fazer. Minha mãe era uma artista. Conseguia fazer arte dos mais variados objetos. Restos de retalhos onde ninguém dava nada por eles, ela transformava em colchas maravilhosas…e criar sete filhos numa fazenda era uma arte também. Teria de dar ocupação para que a cabeça deles não fosse além do riozinho que descia manso e devagar… Mas a Maricota me acompanhou pela vida afora e eu querendo uma filha para repassar. É verdade que depois de um tempo ela ficou esquecida numa caixa de papel, junto com as lembranças e fotos de um amor distante. Um dia, a encontrei por acaso, vasculhando as caixas de lembranças e como eu senti saudades! Porém, o telefone toca, as coisas se espalham e o compromisso veio…Deixei ela ali, na cama, junto com bilhetes e recordações e na volta o que encontro é uma Maricota despedaçada. Fora estraçalhada pela minha cachorrinha. Degolada. Não tinha como consertar… E o que mais doeu foi ver que dentro ela tinha um pequeno coração, que minha mãe pegara de um brinco velho que tinha quebrado o trinco. Isso doeu na alma. Procurei fazer um enterro decente pra ela…Meu filho, já moleque achou engraçado na hora. Tirou sarro, virei piada na hora do jantar…Mas a minha surpresa foi quando, na reunião de mães da escola, minha estória foi lembrada com poesia pelos professores de literatura e português. Meu filho havia feito uma redação sobre o que aconteceu e tinha magia nas palavras dele…a mesma magia que eu sentira ao ver o coração morto de Maricota ali…com meu abandono.
Mariana Gouveia

Maricota, que adorável.
CurtirCurtir
tão adorável você, Mariel! Beijos
CurtirCurtir
Ebaaaaa!
CurtirCurtir
Eu tenho uma história parecida, quando eu era pequena ganhei do meu pai uma boneca de pano preta semelhante a maricota, eu gostava muito dela, mas um dia eu fiz alguma malcriação não me lembro exatamente e meu pai me bateu com a boneca e ela também ficou despedaçada fiquei muito triste nunca mais esqueci essa boneca, meu tentou comprar outra,
mas não encontrou.
Hoje eu faço e costuro manualmente bonecas pretas e presenteio algumas crianças q também gostam!! ♡♡♡
CurtirCurtido por 1 pessoa
Que bom receber seu comentário. Também sou artesã, mas não faço bonecas. Bem vinda sempre aqui. Abraço
CurtirCurtir
Nossa, como me emocionei com tua história !!! A verdade, a dor da saudade, o valor que um objeto tem, não por ele mesmo, mas por quem te deu, pelo carinho com o qual foi feito, pelas lembranças que ele guarda ….. Pelo grande valor do amor !!!!
CurtirCurtido por 1 pessoa
Que AMaricota!
CurtirCurtido por 1 pessoa
rs… Eu dizia: amoricota…
abraço, moço
CurtirCurtido por 1 pessoa