Scenarium Livros Artesanais

Eu te benzo…

“Deus é o verbo,
E o verbo é Deus,
Se (nome da pessoa) tiver mau olhado, benze-a, Deus.
Dois olhos olharam mal
E três estão para olhar bem, que é o Deus Pai, o Deus Filho e o Espírito Santo.
Amém. ”

Caminho e por onde vou as ruas me levam a imaginar o passado. Não que o passado viva presente em mim sempre, mas é que até as ruas parecem saídas de histórias que eu li. E nessas ruas eu vivi grande parte de minha vida. Na beira da rua há um córrego e lembro-me de que tantas vezes tive de atravessá-lo molhando os pés. Hoje, isso não é mais possível. Uma ponte de concreto foi construída e o córrego virou recebedor dos esgotos da região. Minha mente segue o endereço de cor e a casinha branca, em um bairro quase central parece surreal no meio da paisagem. É como se eu atravessasse um portal imaginário e o mundo fosse outro, de repente.

Como sempre, ela me espera no portão. Com o riso solto, o abraço aconchegante, a bênção dada e ofertada no carinho de quem me conhece de tanto tempo. Parece que me tornei parte da família e eu sempre a busco nos momentos complicados em mim. Seja de saúde, de cansaço, de busca do meu equilíbrio e ela sempre me acolhe nesses momentos como se fosse um refúgio para minha alma que às vezes, desequilibra e grita por benzedura.

Às vezes, venho em dia de festa também. Quando ela comemora a vida e os santos que a ajudam. Ali, em meio ao jardim, no fundo da casa, de onde brota todos os tipos de flores, ervas, árvores e paz, com um raminho na mão ela segura minhas mãos e suas palavras me enchem de emoção. Sempre choro nesses momentos. Um choro bom, de alma sendo curada.
Meu filho a chamava de vó e com isso eu passei a chamá-la também. Mas para todos, seu nome é Maria, embora, no registro é Deolinda. Alguém uma vez disse Maria e ficou Maria. Para alguns, benzedeira. Para mim, acalanto.

As ruas ao redor da casa dela parecem ter parado no tempo. É como se eu estivesse entrando em uma fazenda. Cerquinhas de madeiras contornam quintais e até o maracujá serve como caramanchão para os dias ensolarados da cidade. Ali, onde sento, quase no fim do dia, antes do sol se pôr e respiro momentos vividos no fundo do quintal de onde avisto grande parte da cidade. Olhando assim, parece surreal.

Quantas vezes esse lado da cidade foi guardião do meu passado, da minha adolescência, da minha juventude, dos meus medos e da minha segurança.
Dou um relato rápido sobre os últimos meses em que não pude vir. Ela entende e parece até que já sabia. Uma neta havia me visto aqui e ali. O silêncio nos une ainda mais. Só ouço o leve respirar dela e percebo que a vida lhe é sugada a cada dia. Penso que Deus a criou para me guiar. Para me benzer quando minhas energias estivessem em alvoroço dentro de mim, buscando rumos.

A oração ela me ensinou em uma manhã de inverno. Todas as vezes que a vejo relembramos o dia. Inverno castigante para uma cidade do calor e havia rojões que rasgavam o céu, por que era dia de festa junina na vizinha do lado. Quando recordamos disso, os detalhes me povoam a mente. O cheiro do gengibre no quentão preparado. Os bolos sendo assados e o cheiro impregnando o jardim realçando a fome, ou só mesmo a vontade de comer. O frio que parecia maior por causa do vento. A fogueira sendo preparada por netos e filhos e amigos e a oração nas palavras quase mantra dela.

A repetição era para aprender mais rápido. A atenção, para memorizar; o respeito, para a reza funcionar e a alegria interior era o agradecer da oração já atendida. E mais uma vez, repetimos as histórias, as lembranças que tiramos do baú e a oração é dirigida ao Universo.
Quando me despeço olho mais uma vez a casa, quase no meio do nada e tão dentro da cidade. Uma cidade tão cheia de passados guardados nas ruas que me levam para as bênçãos da vida.

Mariana Gouveia

Agosto é o mês de benzeduras e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
Texto publicado no “Caderno de Notas – Terceira Edição”, pela Scenarium Livros Artesanais.

6 comentários em “Eu te benzo…

  1. Uma vez aconteceu algo comigo… eu era menina, não me lembro o que houve. Sei que me levaram a uma senhora e ela passou ervas no meu corpo. Enfiava os galhos escolhidos por ela numa vasilha com água e dizia palavras. Antes de eu ir embora, ela me deu um saquinho vermelho pequeno. Ela disse para eu andar com ele. Eu fiquei observando aquele pedaço de pano bem dobrado, costurado nas laterais, tentando imaginar o que havia dentro.

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    1. Interessante! Meu pai era benzedor e tentou passar para mim as rezas e orações. Ficaram perdidas em algum canto da memória. Não sei se conseguiria repetir tudo. Fiquei imaginando o que havia dentro do saquinho vermelho…<3

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