A primeira vez que ela me falou sobre partidas foi durante uma colheita de cogumelos. Eu já nem tinha mais aquele jeito de menina e ela já nem parecia mais a fada meio bruxa meio flor e sim jeito de vó.
Enquanto eu mordia o lado mole do capim e limpava o suor do rosto que teimava em cair, ela começou a falar de um lugar. Era um lugar lindo, que todos iam conhecer e era para onde a gente ia depois que partisse.
Senti uma dor na alma com a palavra “partisse” e imaginei uma viagem. Perguntei se ela ia viajar e ela suavemente disse que logo teria de ir.
– Quando você volta? – perguntei – imaginando ficar sem ela por mais de um dia. Eu nunca havia ficado um dia sem estar com ela… todos os dias era presença certa na minha vida.
– Talvez eu não volte… – ela me respondeu em suavidade, como se não quisesse falar e eu a entendia muito bem.
Depois de um longo silêncio, ela quebrou dizendo:
– Para tudo, há uma hora certa. Assim, como há a época de colher os cogumelos, de plantar os girassóis, de regar a horta, de nascer. Há o tempo da partida.
Lembrei-me que meu pai já havia partido uma vez. Havia acompanhado uma comitiva de gado até uma outra fazenda que a gente tinha e dessa vez ficara mais tempo do que previra por causa de uma enchente.
E já conhecendo meus pensamentos ela retrucou:
– Essa viagem é diferente. Diferente de todas as viagens. A gente não volta, pelo menos não assim, visível. A gente volta como poesia, só.
Aquilo me deixou triste e eu saí correndo. Fiquei dias sem ir lá vê-la.
Um dia, enquanto eu sentada olhava o pôr do sol, ela se aproximou, com um cogumelo na mão, desses bem grande e me deu.
Falou do meu sumiço e que esse sumiço foi por bobagem, porque quando chega a hora a gente vai de qualquer jeito, assim como o cogumelo é arrancado de seu grupo sem poder escolher.
Falei baixinho, quase sem voz:
– Você pode escolher não ir.
– Não. A escolha não depende de mim – ela disse.
– De quem então? De meu pai? Eu posso pedir para ele não te mandar. Não vai nascer nenhuma criança agora.
– Não do seu pai, mas de um Pai Maior. Esse, determina quando a gente nasce, a hora que a gente morre e tudo que a gente pode fazer é aproveitar cada momento. Eu sou abençoada e se tiver de partir agora, tenho certeza de que fiz a coisa certa enquanto estive aqui. Eu vivi a intensidade das coisas. Agora, para relaxar, que tal uma corrida maluca até o rio? A última a chegar é mulher do padre…
Eu sorri, meio sem graça e topei… mas percebi a lágrima que ela limpou.
Aproveitei cada momento como nunca daquele dia em diante.
Dias depois ela se fora. Como um passarinho, em um dia estranho de agosto.
Como um cogumelo arrancado do grupo.
Ultimamente tenho pensado nela. Nas palavras que ela dizia e eu anotava sob a luz de lamparina em um caderno que ainda tenho.
Faz muitos anos que ela se foi. Mas, todos os dias eu a sinto. Eu a vejo e a vivifico em tudo que faço. Com a intensidade de viver o que me foi dado como presente. O hoje.
A saudade virou poesia em mim nas lições que pratico diariamente.
E tenho certeza de que de onde ela estiver, ainda faço parte dos cuidados dela.
Mariana Gouveia
Agosto é o mês de saudades e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli –Darlene Regina

Lindo Mari!❤
CurtirCurtido por 1 pessoa
Grata, minha flor ❤
CurtirCurtido por 1 pessoa
Menina Mari, você herdou muito dessa fada. Mas a poesia, ahh… Essa é algo muito seu. Obrigada por compartilhar conosco essas histórias. Estou literalmente encantada!
CurtirCurtido por 1 pessoa
Isso me deixa muito feliz! Grata tanto, ❤
CurtirCurtido por 1 pessoa
Que lindeza .. uma narrativa de muitos encantamentos! 🌻
CurtirCurtido por 1 pessoa
Muito obrigada! Bem vinda sempre! ❤
CurtirCurtir