Para meus irmãos e os meninos da região ela era uma bruxa de verdade. Alguns até jogavam pedras, meio ressabiados, de longe, quando ela passava. Meu irmão mais velho cismava sempre sobre vassouras. E sobre o que havia no interior da casa. Claro, que eu adorava dar os detalhes e exagerava em alguns que atiçavam ainda mais a curiosidade deles.
Sobre os lustres que pendiam do teto, num lugar que nem havia energia elétrica, mas minha mente criava uma luz azulada, mais irreal do que a bruxaria que imputavam a ela. Algumas coisas que havia sobre a mesa, que nada mais era que os seus apetrechos de parteira, sempre prontos para colocar mais uma vida no mundo… e eu falava da tesoura gigante, enferrujada, e algumas poucas penas de aves, que não sabia quais eram, mas claro que a parte das penas era por minha conta. Afinal, a ave solta que grunhia tanto era uma arara que algum caçador não conseguiu matar e ela salvara cuidando, mas eu dizia a eles sobre ser um urubu, achava eu, e ria por dentro ao vê-los mortos de curiosidade e mais ainda de medo.
No fundo, acho que a fama de bruxa dava-se às roupas pretas que usava num luto infinito que foi desde a mocidade até o fim dos dias, e só fui descobrir o porquê aos 13 anos. Havia perdido o noivo em um acidente e só a conhecendo como eu, e isso, acho que além de mim só minha mãe sabia que ela era uma doçura que ia além das palavras. A bondade e a mania de querer salvar todo mundo, resolver tudo dava a ela um toque de “dona do pedaço”.
Essa fama de bruxa a agradava até certo ponto. Afastava os meninos danados do jardim. Ninguém atrevia atravessar o portãozinho que separava a casa dela da estradinha que levava a floresta. E com isso, os cogumelos “negris” ficavam a salvo. Ela tinha adoração por eles. Conhecia cada árvore onde cavoucando ao pé, saia cada um mais bonito que o outro.
São especiais! – Ela dizia- São como as palavras que pronunciamos… Possuem o dom da cura e da morte. Depende de como a usamos.
Mariana Gouveia
Agosto é o mês das bruxas e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli –Darlene Regina

Uma narrativa mui sui generis . Obrigada Amiga Maria
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Obrigada eu, Maria! Espero que esteja bem. Beijos
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Acho interessante como a palavra bruxa por aqui tem qualquer coisa de Disney. Dá até para imaginar as verrugas e a cara enrugada. rs
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No imaginário de muitas crianças – inclusive eu e meus irmãos – foi criado essa impressão. Ainda bem que o tempo e uma bruxa me tirou essa ideia.
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Além dos pontos que acrescentou ao lindo conto, as “mentiras” verdadeiras que engrandeceu a sua personagem real, tive uma visão. Será que ela não cultivava o amor morto fisicamente no jardim que protegia?
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Não, na verdade, a proteção dela para com o jardim era como se cuidasse de uma farmácia viva… era para benefício e cura. Abraços
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