Corredores, Codinome Locura

dos barulhos da rua de cima

Ouvi os ritmos da rua de cima desde cedo. As crianças começaram a correr logo que o sol surgiu e o moço da reciclagem vasculhava os cestos de lixo em busca de algo que servisse para a venda. Um galo cantou – e não foi a primeira vez que ouvi… há dias que ouço o cocoricó esganiçado de um galo garnizé – o pássaro de todo dia veio buscar colo na minha mão.

Parece segunda-feira – tenho essa sensação – e o ipê ganha cachos de sementes que ao menor sinal de vento voam como se tivessem asas. Aqui, em casa, o silêncio só é quebrado pelo amuo dos cães, que já pressentem a aproximação do banho. Já sinto a proximidade das flores e o verão chega como quem vem para morar.

É só o segundo dia do ano. A primeira folhinha foi arrancada do calendário e eu conto uma história para a menina que perdeu o pai. Como dar esperança para quem viu seu herói partir? Ela segurou minha mão com a força de quem ficou sem rumo, mas que já sabe como criar um atalho para viver.

Mariana Gouveia
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