
As paredes tinham vultos estranhos. Desenhos sem nexo, letras garrafais e traços levando a rotas que sempre terminavam na porta. Eu vi logo assim que cheguei.
Trouxe as flores que ela gostava. As cortinas balançavam com o vento. Ela olhou além da janela com grades e perguntou sobre todos os nomes que eu lembrava. E até de quem eu nem lembrava mais. Perguntou também das Marias. Havia uma infinidade de Marias em nossa rua!
– Tinha aquela que brincava comigo além da cerca – riu, ao se lembrar.
Essa tinha se mudado no ano passado – pensei em dizer… mas já não fazia sentido.
– Tinha a Mariazinha, que me roubou a boneca que sua mãe fez – a lembrança vaga da boneca preta Maricota inundou nossos pensamentos.
Minha mãe prometeu fazer outra igual, no meio de toda a confusão… mas não deu tempo. Ela morreu antes. Só ficou a promessa… no vazio. E, depois, ela veio parar aqui, nesse lugar de recolhimento, e nunca mais falamos na tal boneca.
Ela olhou as flores com riso no olhar. Cheirou cada uma… Pegou um caderno. Os desenhos saltavam das folhas brancas. O balanço na árvore da infância, o riso quase ecoando no papel. O vento nos cabelos e eu a empurrar dizendo ser a comandante… Braços soltos no ar. Riso largo. Ver o riso desenhado trouxe uma leve ternura… meu retrato parecia voar. Eu, sem palavras. Ela, num gesto mínimo-seu…rasgou a folha e me deu.
Comeu um dos doces que eu trouxe… fechou os olhos e disse que era sonho de toda noite esse sabor.
Eu a abracei, enquanto nossos corações batiam ritmados. Cantei baixinho a canção que ela gostava e a embalei… ela falava sobre abandonos. Alguém abandonara a moça do quarto ao lado. Tinha o nome de Letícia, a pobre. Ninguém a visitava. De vez em quando, repartia os doces que eu trazia com ela, como um meio de adoçar a solidão da moça. Também, no dia dedicado ao jardim, contou-me que fez uma trança em Letícia, que ria… mas permanecia com o abandono no olhar.
Nas paredes, reparei que os poemas se misturavam a nomes e datas. Meu aniversário ali, desenhado dentro do coração, e as mãos dadas entre um pacote com laços vermelhos, “da cor do seu cabelo”, ela disse…
A moça de jaleco branco veio dizer o fim a hora da visita. O abraço longo, enquanto eu ajeitava os cabelos dela… o beijo na testa e a promessa da volta.
Os olhos a encarar o teto. O riso de louca a cada expressão…
– Acho que toquei as estrelas… – ela disse. Eu tinha a certeza de que sim.
Lá fora, uma chuva fina caia.
Lá dentro, na janela, ela escondia a lágrima e ria.
Eu já tinha um poema para escrever e iria desenhá-la na chuva, com os cabelos vermelhos de sempre.
O lugar, visto de fora, parece o paraíso.
De dentro, recolhia a alma das pessoas que ousavam atentar contra a normalidade.
Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural 1900 – Casa dos Contos
Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
Eu já tinha lido, editado e tudo o mais, mas agora, dentro da noite, com calma e uma música a dizer-se aqui comigo… fui apenas corpo a buscar por ar.
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Nesse momento meu coração alcança o seu no teu idioma… E alcança o coração de alguém mais e você sabe de quem estou falando. Grazie tanto
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