Scenarium Livros Artesanais

leu… está lido!

Há livros que te alcança a pele, a alma e o coração. Alguns são passageiros. Outros, você lê e eles seguem seu rumo, seja num cantinho da estante, ou mesmo em um banco na praça. Logo quando leio e a história ganhou vida em mim eu o “esqueço” em um banco de praça ou no banco do ônibus. Virou coisa comum esquecer livros em algum banco, numa loja, por aí…
Mas, tem livros que ficam para sempre, para que esteja sempre ao alcance das mãos, como se fosse uma bíblia, e volta e meia você o busca e entre uma xícara de café e os pés descalços, ganha nova cor, outras sensações e são infinitos dentro da alma. Porém, há livros que passam por nós como uma nuvem. Você leu e está lido.

Lembro-me que meu irmão trouxe um livro quando retornou de uma viagem – O perfume, história de um assassino, de Patrick Süskind. Como sempre era eu quem lia primeiro passei alguns dias nessa leitura e embora tentada a parar algumas vezes, consegui terminar.

O livro conta a história de Jean-Baptiste Grenouille, dono de um olfato apurado, péssima aparência e de poucas falas, ele descobre nos cheiros e aromas do mundo o sentido de sua existência. Rejeitado desde seu nascimento, quando foi abandonado pela mãe junto a restos de peixes em um mercado, também é uma pessoa que não exala cheiro, que não se emociona, que cresceu como um animal que “fareja”, e que não apenas desconhece os nomes dos odores que identifica, mas também de tudo aquilo que se constitui humano.

Para mim, a leitura foi como um sonho surreal, desses que você acorda e tem a sensação de que viveu alguma aventura, alguma coisa insólita. Não posso contestar a maneira que o autor usa os adjetivos nas descrições dos aromas e nem de como sua escrita ganhou a proporção de “unanimidade” que virou até filme. Nem estou aqui apontando o dedo para quem gostou. Dentro desse contexto, nem é resenha o que escrevo, é apenas minha opinião mas pelas sensações que o livro me causou do que propriamente pela escrita.

Lembro-me apenas da sensação que eu sentia ao ler e perceber que os aromas tão detalhados me faziam sentir pavor. A história não me ganhou, mas algumas partes do livro ficaram em mim até hoje, e é claro que sempre quando sinto um odor mais forte, o livro volta a memória.

“… as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.”

Cheguei ao fim do livro apenas empurrada pela curiosidade de ver o final.  Enquanto para muitos o livro foi memorável, inclusive para meu irmão, para mim, li e está lido.

Mariana Gouveia
Texto coletivo
Scenarium Plural Editora

13 comentários em “leu… está lido!

  1. Interessante observar como a história chega a cada um que lê. Li esse livro na década de 80 e me marcou profundamente. Exatamente por ser uma leitura incômoda, por mexer com as emoções e causar desconforto, tornou-se inesquecível. Gosto disso.

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  2. Eu tenho esse livro e ainda não o li, mas já li várias resenhas de pessoas que relatam o mesmo que você, “é possível sentir o aroma”. Isso me deixa curiosa demais sobre a história e sua narrativa. Pretendo ler algum dia, mas acho que ainda não é meu momento.
    Adorei a capa da sua edição e gostei bastante das suas impressões.

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