Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Chegar ao ponto

Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos

uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo

viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem


Rui Caieiro

Bambina mia,

Escrever-te é me deixar ser levada até tua cozinha. A mesa – como adoro aquela mesa – e o bolo de fubá ainda a se anunciar em cheiro. Devia ter comido mais um pedaço antes de partir.

As tuas mãos a desenhar as receitas, para mim, já eram poesias vividas ao vivo e a cores. Jane dog a se embolar em meus pés e o café a exalar seu cheiro nos corredores que me leva até o elevador e tuo bambino a separar as páginas de mais um livro na sala.

Sou de sentir os cheiros e aspirá -los antes mesmo de tudo pronto. Brinco que em outra vida – se existiu outra vida – devo ter sido cão. O faro é bom! Por isso, talvez, desde nossa conversa sobre o ponto do cozimento das batatas antes de irem ao forno o que me levou em aromas e cheiros foi o molho da laranja.

As superfícies da cozinha e os utensílios me levam ao equilíbrio da palavra: chegar ao ponto e lembro – me da toalha que acabei de bordar. Os pontos, um a um fizeram um coração de tomates, uvas e flores. Embora seja diferente, o ponto deve se entranhar no tecido com as linhas e suas cores e com isso formar o desenho que se espera… assim como as batatas ao serem cozidas a aguardarem o ponto exato para serem assadas e por fim, o molho.

Acho que vivemos as duas de lembranças, bambina. Tu, de tua terra e os teus e eu, da infância, para onde volto de vez em quando a relembrar os cheiros. Primeiro, da horta feita logo atrás da casa e do cheiro da terra molhada enquanto os legumes e verduras eram colhidas por minha mãe. Depois, do pão de milho e as pamonhas a serem cozidas, até chegar no ponto de poder abrir a folha e saborear.

Para você ver que estamos desde sempre esperando que algo chegue ao ponto. Do caramelo ao molho da laranja. Da bruschetta derretendo o queijo ao café ristretto a invadir os quintais e corredores. Tanto aí, quanto aqui e devo dizer que um cheiro de chuva rodeia meu lugar e trovoa. Embora, trovão não tenha cheiros, mas é a primeira coisa que me leva até você, sem passar do ponto.

Grazie,
Bacio

Mariana Gouveia

2 comentários em “Chegar ao ponto

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