
Bambina mia,
… enquanto te escrevo mio menino arranca as ervas daninhas no quintal – tenho de ficar de olho para que ele não leve entre elas algumas ervas que são remédios e que curam… Outras são folhas para o chá e que ele não sabe quais são – é uma espécie de vigia entre a palavra ” essa não… é poejo”… e o grito “Nãããooo! É alfavaca!”
Abril hoje é presente aqui – mesmo – com sua ventania quase frio. Trovejou aqui e você veio pelo meu chamado. Choveu e agora está aquele vento meio pingo meio frio que adoro. As cortinas dançam com isso e acho esse balé a coisa mais linda. As folhas do pé de algodão caem com esse sopro e arrastam no quintal como se chamassem atenção para a cena.
O vento é quase uma carícia na pele e recebo ele de olho fechado e alma aberta – de vez em quando danço com ele… vou para o meio do quintal e abro os braços enquanto ele levanta meu vestido – o pássaro de todo dia ronda meu lugar… chama atenção no varal de roupa com sua miudeza e chilreio… ainda não descobri como se chama o canto do beija-flor. Será que é floreio?
Hoje é aquele dia comprido que demora a passar. Trago nele tantas lembranças da infância. As histórias de meu pai e o mistério de uma data que todos vivem sem viver de fato o verdadeiro sentido dela. Confesso que por força de algo maior que não consigo definir sigo alguns rituais que meu pai seguia. Digo no tempo passado porque é algo que marcou minha vida – acho que sou a única dos irmãos que ainda faz isso – e pela primeira vez em muitos anos não vou seguir a procissão que começa lá em cima, na avenida. Já ouço o canto pelo microfone . Alguns rituais precisam ser rompidos. Alguma coisa vai mudando com o tempo ou são as pessoas que vão se tornando estranhas aos meus olhos e já não me sinto necessária em alguns lugares.
A vida tão cheia de verbos e frases feitas. Datas singulares que abrem a gaveta de minha memória tão cheia de pretéritos que sobram para fora algumas peças extras que tento decifrar ainda. Coloco o envelope laranja junto com os outros. Aspiro o cheiro de palavras que se juntam e aceito seu convite. Dou-te a mão e vou contigo pelas suas calçadas e ruas.
Abraço-te e rio na sintonia da resposta que sai ao mesmo tempo que a pergunta chega…
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Missiva de Abril
Scenarium Livros Artesanais
Lindo.
CurtirCurtido por 2 pessoas
Grata!
beijo
CurtirCurtir
“Alguma coisa vai mudando com o tempo ou são as pessoas que vão se tornando estranhas aos meus olhos e já não me sinto necessária em alguns lugares. A vida tão cheia de verbos e frases feitas. Datas singulares que abrem a gaveta de minha memória tão cheia de pretéritos que sobram para fora algumas peças extras que tento decifrar ainda.”….Belo momento de escrita -obrigada Amiga Maria
CurtirCurtido por 2 pessoas
Maria querida! Grata tanto!
Beijo
CurtirCurtir
Espero que tenhas muitas, muitas gavetas.
CurtirCurtido por 1 pessoa
Muitas… Cheias de risos, pretéritos, verbos e lembranças, Mariel!
Saudade de tu!
Beijo
CurtirCurtir
Voltandinho. Aos poucos, mas firme e forte
CurtirCurtido por 1 pessoa
Li várias vezes a sua missiva, ‘desde que chegou’ ontem e sempre dou risada diante da cena do quintal e sua fala de cuidado junto as suas ervas. Me fez lembrar um senhor que conheci que todo final de tarde arrancava as tais daninhas. E as pessoas queriam saber o motivo daquele ritual particular. Eu só gostava de apreciar. Não queria saber o motivo. rs
bacio carissima
CurtirCurtido por 1 pessoa
Eu preciso tomar cuidado… Ele não diferencia hortelã de capim…
Bacio
CurtirCurtir