8 de maio de 76.
Menina eu, ainda…onze anos corridos na leveza da vida. Tranças, risos, bolo de laranja. Brincadeiras no quintal. Os sete irmãos na corrida um do outro e todos de todo mundo.
Flor colhida no campo. Presente de amor.
O chá na xícara, a oração para os santos. O coro dos sete filhos. E ela, vibrante. No vestido de florzinhas miúdas, também de tranças e o bolo dividido entre todos. Era festa. A fogueira crepitava. A noite tinha a companhia da lua, das estrelas. O cheiro de flores do campo no ar.
Havia sido um dia especial.
8 de maio de 80.
A adolescência me roubava os dias. A xícara trazia o simbolismo do bolo. Já não eram os sete ali, juntos. Uns, não podiam entrar no hospital. A roupa era de um verde-pálido, uma camisola usada pelos pacientes. De onde estávamos, o bolo era cortado. A fogueira acesa, o parabéns cantado e a reza muda. Ao invés de felicidade, pedíamos saúde para ela.
O riso dela, mesmo longe, ecoava dentro de nós. Uma carta escrita e lida. Uma música pedida via rádio e o locutor junto com a gente canta a mesma melodia. Ela, distante, ouve e parece que nunca havia saído de lá de perto deles. Ela mesmo me disse isso um dia.
8 de maio de 82.
Já não podia mais a xícara, nem o bolo. A hemodiálise era alternada em dias. O parabéns quase em silêncio. Ela na janela, e nós no pátio do hospital cantávamos bem baixo, para o que a lei do silêncio permitia. A lua definia que era outono. E ela só chegaria até a primavera daquele ano.
Nos outros 8 de maios que vieram ela não era mais fisicamente. Ela estava na xícara, no bolo, no chá. Nos ensinamentos, na arte, no artesanato. No crochê feito. No olhar do filho que parece mais. Daquela que ri igual. Os setes nunca mais estiveram juntos ao mesmo tempo. Mas, em cada 8 de maio, enquanto os anos passam, cada um ao seu modo a faz viva. Era como se ela nunca tivesse ido.
Eu pego as fotos antigas. O álbum amarela e percebo nos dias que, assim passam os anos.
O cheiro do chá de hortelã invade o quintal. A lua, em diminuto mundo, mingua do tamanho da minha saudade.
O caldeirão de feijão que ficou comigo, o jogo de xícaras, e uma quebrou a asa na mudança depois da ida dela. O bolo já não é mais feito. O sabor da laranja evapora na saudade que ela deixa mesmo depois de 32 anos.
Parece que foi ontem. Mas, é hoje. 8 de maio de 2014.
A menina só existe no coração de poesia que ela bordou em mim e fez de mim o que sou e em cada dia que passa eu tento ser melhor, alma e espelho dela. A coragem, ordena em mim lugares todos os dias pelo mesmo hospital. As dores são outras, mas a fé é tão igual.
Os seis, cada um em um lugar diferente e eu aqui, com eles no coração e na mesma voz digo:
Feliz aniversário, mãe!
Mariana Gouveia
_ este post é parte integrante do projeto “caderno de notas – terceira edição” do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Tatiana Kielberman, Tha Lopes e Thelma Ramalho.

Que leitura gostosa… embora triste.
As memórias de uma vida..
beijo.
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Já deixou de ser triste, Ingrid. Passou a ser da mesma maneira que ela sempre foi. Esvoaçante na vida. Quem amamos vive sempre em nós, nas memórias.
Beijos, minha linda.
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Sua mãe com certeza era linda, em espírito e beleza. Muito emocionante, hoje quase chorei falando com uma senhora da mãe falecida dela. No meu serviço, no meio de todo. Sou dessas, sabe? Não consigo fingir que não sinto. Se eu sinto todos veem. Abraços, para você e todas nós. O dia das mães são todos dias.
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Ah, menina Ester linda. às vezes, coincidência não existe.
É esse sentimentalismo nosso, que não nos deixa mentir. Vai no olho mesmo.
Hoje minha mãe completaria 70 anos.
Uma insuficiência renal a levou antes de realizar o transplante. Mas ela deixou em mim a leveza da alma e da vida. Sou abençoada por ter tido ela como mãe.
Beijos
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Sempre existiram lado bom! Estamos juntas! Abraços.
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Mesmo que não tentasse, acho que você acabaria sendo igual a ela, é natural, repetimos os gestos que observamos ao longo da vida. Por isso tenho certeza de que depois de tanto tempo, ela continuou através de você. Abraços
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Coisa mais linda de ler, Marco Antonio.
Pude hoje homenageá-la através do Caderno de Notas e por isso, o dia pareceu-me de festa.
Grata.
Abraços
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Fiquei aqui a pensar em minhas próprias lembranças. Tudo floresceu feito a primavera que bate a porta do lugar onde nasci e cresci que é também o lugar onde a maioria das lembranças que coleciono vivem… Respiro fundo e vejo em tuas palavras as minhas vivências. Vou demorando um pouco mais em cada linha. Reconhecendo-me e, então, desapareço porque sei que és tu ali e não eu…
bacio
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Ah, Lunna querida. De repente tudo se encaixa e uma lembrança ganha vida na outra. Me vejo assim também nas suas lembranças e nas palavras que desabrocham de ti.
Hoje, tudo ganha uma dimensão nova e tal qual uma rede somos ligadas uma na vida da outra.
De qualquer forma, o universo conspira para unir aqueles que tem afinidades.
Hoje, o dia tem ares de festa, justamente por causa de ti.
Nos outros 8 de maio era apenas a saudade. Hoje, ela vem junto de palavras doces espalhadas.
Grata infinitamente.
bacio, bambina
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MariAna,
Escrevo palavras embaçadas pelas lágrimas da emoção com a qual você me contagia.
És tão linda…tão rica de beleza nesse olhar encantado…
Não é a toa, teu primeiro nome são dois e cada um é afago. Pequena Mari, amada Ana. A menina do 8 de maio de 76, ainda anda contigo e dá para vê-la de longe. Só uma menina para espalhar tanta doçura nos dias da gente.
Você é amor, disfarçado de gente. Bendita seja sua mãe, que nos presenteou com você.
Beijos meus…
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Ah, Claudinha. Às vezes, Deus cria gente disfarçada de flor. Só pode!
Emocionada eu, aqui, agora. Perco-me nas tuas palavras e mais uma vez agradeço as bençãos que Deus me dá. Você é um doce presente na vida. Beijo meu
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Sensibilidades/Saudades/Amor, lindo o seu escrito/homenagem!!!! ❤ bjo
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Caminhos, SC. Assim, a vida é feita. Beijos
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Eu, que hoje, passo este dia sozinho… Nem sei se ela é viva ou esta morta. Quase vinte anos sem vê–la, não dei a ela a noticia da sorologia. Se é viva e descobriu? Não sei… E a dor que dói mais é a dor de não saber!
Isso porque esta dor é uma coisa parada no tempo. VC fica naque ínfimo lugar no tempo com todas as duas duvidas…
O tempo empurra o corpo, o espírito. Mas a dúvida é sempre presente na ausência… E eu, que já morri mil mortes, penso que morrerei outras mil aina hoje, simplesmente porque não sei….
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E conforme suas letras descortinam, vemos mãe e filha, em tu. Toda ela, sempre ali, toda você. Afinal, como separar o indivisível.
Grande beijo!
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Grata, poeta. Sempre. Beijos
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