Afetos · Das palavras das cartas

Dos dias para além dos anos

Amor,

hoje você completa 60 anos. Percebi que mais da metade desses anos a gente está juntos.
Você sendo sempre meu norte, meu guia e apoio. Sou testemunha do homem divertido, sensível e apaixonante que você é.
Vejo a maturidade por trás do riso de menino, da gargalhada do homem, do silêncio quando está triste.
Eu viveria tudo de novo com você, acompanharia seus passos e te esperaria no portão todas as vezes que sair. Farei tudo isso ainda, de agora em diante.

Que os seus dias sejam inspiradores e renovados na fé que te acompanha.
Feliz aniversário 🎉
Te amo muito 💗

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Pai, mais um 1º de junho no calendário…

e mais uma vez te escrevo porque hoje seria seu aniversário e vim repetir nosso ritual de cartas – continuo seguindo alguns ainda, pai, mesmo sem você aqui.

Aqui, os dias passam ligeiro e muitas vezes me pego pensando que não te liguei durante a semana… deve ser a forma que o coração lida com a saudade.

Para não esquecer algumas coisas nossas, pai, eu enumero elas por emoções. Junho causa isso em mim com as lembranças da infância e sabe, pai, que em noites de insônia eu rememoro cada uma delas.

Depois de sua partida, eu passei a tentar entender o “paraíso” que imaginamos daqui e vou abusar dessa carta uma vezinha só, pai… tem um amigo querido que partiu recentemente, pai e se por acaso, em algumas das esquinas do lugar onde você está, encontrá-lo, pai, dá um abraço nele por mim. Ele atende pelo nome de Marco Antônio, mas você o reconhecerá pela gargalhada e os cães que o acompanham…

Ah, pai, esqueci de dizer que hoje também seria o aniversário dele e foi essa data que nos ligou tempos atrás e ele gosta de poesia, então, quem sabe você não declame para ele os cordéis que você gostava aqui. Dá até para fazer uma festa só para comemorar o dia de vocês dois.

Te amo sempre!
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Carta à minha mãe.

A ausência é uma forma de inverno 
Luís Garcia Montero

Mãe,

mais uma vez te escrevo… hoje seria seu aniversário e nesses 43 anos de sua ausência há sempre essa sensação de falta, de vazio. O ipê floriu de novo e o pássaro de todo dia se encantou com as flores temporãs amarelas.

Sabe, mãe, nessa data fico memorizando os 8 de maio anteriores de sua partida. Era tudo tão simples e mágico que seus dias aqui duraram pouco. A gente se reunia em volta da mesa grande da cozinha e a festa acontecia entre risos e abraços. O bolo assado no forno de barro e as flores do cerrado formava o buquê – que era seu presente – e seus cabelos.

Ainda lembro de tantas coisas… ainda preciso de você tantas vezes. Já perguntei tanta coisa sem ter a resposta exata e a lembrança de quando você chamava meu nome no diminutivo me faz rir. Mas nunca te esqueci ou deixei de falar sobre a herança da arte que você deixou em mim para as pessoas e nunca deixei de escrever, mãe.

Fico imaginando como você seria com meu filho, com o homem que escolhi para viver e de como você seria hoje. Meus cabelos já branquearam e já vivi muito mais do que você… Os anos passam rápido demais, mãe…

Como seria o aniversário aí? Há festa? Fogueira? Há a expectativa de quem vem? Ainda tenho as mesmas perguntas lá da infância, mãe e isso, só vou saber quando te encontrar em algum outro plano. Nesse dia, entregarei todos os abraços que guardo aqui, no coração, a cada imagem linda que vejo que quero te mostrar.

Feliz Aniversário!
Um beijo,
Sua filha
Mariana

Afetos · Colcha de Retalhos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Caminhos literários.

Bambina mia,

Dizem que os livros são janelas para novas dimensões… e acho que essas novas dimensões nos levam para caminhos desconhecidos e pessoas que se aconchegam em nossas palavras… os meus livros seguiram caminhos feitos por tanta gente que resolvi te contar. Uns, voaram além mar e foram pousar em Portugal.

Ana Christelo, em Povoa de Varzim, Portugal.

Eu sempre desejei que minhas palavras ganhassem o mundo e que de alguma forma elas pudessem tocar os corações das pessoas. Daí, surgiu você e tuo menino em meus caminhos e deram vazão ao meu sonho. A cada mensagem que eu recebia de alguém que havia lido algo que eu escrevi era como se aquela menina que sempre quis ser contadora de histórias renascesse de novo dentro do mesmo sonho.

Foto feita pela Sandra Silva, em Porto, Portugal

Sabe, atravessar o oceano e caber nas mãos de alguém que a gente gosta e fazer com nossas palavras sintetizem o sentimento para além da poesia é algo magnífico. Devo colocar a culpa em você, que transformou as minhas palavras em livros? Que fez com que meus caminhos literários cruzassem o mundo?

Fotografia envida por Sandra Silva, de Paris

Estar ali, ao alcance das mãos, em uma estante mundo afora, junto com os outros livros preferidos de um leitor é tudo que alguém que escreve sonha. E a gente sabe, e já falamos muito sobre como é difícil enviar livros para fora do Brasil. Uma editora independente, então, fica inviável. Mas, quando de alguma forma isso se torna possível é lindo!

Fotografia enviada por Eduardo Moreira, Meda, Portugal.

Pena, bambina mia que sejam apenas seis fotos… e além de voarem para além dos oceanos, eles também couberam nas mãos e no coração de tanta gente aqui que nem cabem nas fotos. E claro que meus diversos caminhos e desvios atravessaram sentimentos dentro da poesia vivida e sentida.

Cinara Thaís, Cuiabá, MT

Falar sobre quem caminha com a gente através de um livro é como se a gente atravessasse a janela para a nova dimensão que citei lá no início dessa missiva. Algumas pessoas nos sabem tão bem que é como se já tivéssemos nos encontrado em algum canto de esquina, uma rua em um país distante, numa livraria… outras, passam a nos saber pela poesia, pelas cartas, pela história que contamos.

Suzana Martins, São Bernardo do Campo, SP.

Eu ficaria horas aqui, bambina, falando sobre livros, sobre pessoas que nos levam além de palavras e no cuore… Mas, ainda estou limitada às dores e o que me cabe aqui é agradecer… À você e ao tuo menino que voou para a imensidão, mas que deixou em mim um carinho do tamanho da saudade que sinto dele. Se meus livros ganharam vida além das folhas em papel e chegaram em tantas mãos mundo afora, as mãos dele e as tuas fizeram com arte o sonho se tornar realidade.

Grazie! Amo tu imenso!
Bacio

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Luci,

Não perdi meu dom de criança: tudo que tem asas, ainda repousa em mim.
Luciane Recieri

Luci,

faz tempo que eu te devo uma resposta de sua carta. Mas, sabe, Luci… eu fiquei tempo demais em stand by. Acho que de muita saudade de gente que se foi, adoeci… e como eu não queria que ninguém me visse chorando por dores físicas e da alma, calei-me…

De vez em quando, eu dava apenas uns suspiros aqui e ali e demorou para eu sair desse trieiro que me levava para lugares tristes. Não vou dizer que sai totalmente, mas já deixei uma pequena fresta entrar.

Eu vi sua foto com seu pai nos 88 anos dele, Luci e lembrei-me de quando ele não queria comer e do estuque verde da parede que você descascava. Lembrei-me de tantas coisas que já se passaram e acho que senti a palavra quase declarada em sílabas: nos-tal-gi-a… e assim, de carreirinha, a palavra me dominou… tanto que corri para o seus lugares e fui te lendo para caber dentro dela. Acho que eu coube, Luci…

Hoje, no meu quintal lembrei do seu verso que cantam pousos na mão. Acho que somos iguais… tudo que é bicho que têm asas – e até os que não têm – buscam apoio ou pouso em minhas mãos, Luci… fico espantada, às vezes, como os espaços que nos ladeiam são elos que nos ligam.

Eu ficaria aqui a tarde toda falando de Almodóvar, de flores de orai pro nobis, de chuvas e livros… de cartas e de lembranças que nos ligam… mas, ainda estou em processo de cura e abril já se finda por aqui.

Eu só quis dizer que andar pelos seus lugares me deixa um pouco mais feliz.

Um beijo grande, Luci, com todo meu carinho e afago de mãos que acolhem os bichos que nos procuram.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

O vento se ausentou do quintal.

A lua andou inquieta no seu espaço lunar e a vida ganhou pouso nas mãos. A metamorfose aconteceu diante dos olhos e a asa desdobrou ganhando a palavra liberdade.

O dia provoca lembranças de datas que queria esquecer. O calor não deixa espaço seguro.

Atravessa as horas dentro do limite do tempo. Ainda era ontem outro dia e o dia outra estação.

Releu as cartas escritas, desenhou com linhas o projeto solidário e ajeitou as rosas no jardim. Podou as folhas extras que pendiam para o quintal do vizinho, transportou sementes germinadas para seus lugares definitivos e foi ali, viver a vida.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Doida de lua

em sua melhor fase queriam exorcizá-la
colaram nuvens ao seu redor
criaram eclipses, efeitos solares
em sua melhor noite

inverteram o céu
tão lunar ela era
apontaram-na como bruxa – um caso perdido
que só um ritual complexo poderia curá-la

quando cheia, ela cansou de tudo isso
lambeu os dedos
e os queimou na fogueira que ardia dentro dela.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Encanto

Se sentiu a moça mais linda do planeta. Vestiu aquela alma que ganhou de presente.
Havia flores em tudo quanto é parte. E aqueles caminhos do país que sempre quis visitar, estava lá.
Foi levada pela mão e no coração. Conheceu cada cantinho… e ela era parte da paisagem como se sempre tivesse morado ali.
A paixão visitava o jardim em delírio de flor.
Havia cartazes de felicidade em todo tempo e os corações sorriam para fora do corpo.
A canção que falava de lua refletia na palavra amor.

E ela não sabia mais onde derramar tanto encanto.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

” eu uso os poemas para saber…”

A neblina esconde as flores que nascem.

Da esquina, se vê apenas a solidão. Um gato no muro, um pássaro na árvore que ainda não amanheceu…

O vento faz com que o frio pareça mais do que está.

O homem da reciclagem com seu gorro de sempre – faça frio ou calor – com o emblema do time preferido, a empurrar a carroça cheia de garrafas pet e a melodia de todo dia a ecoar nas ruas do meu lugar.

Ele cantava a vontade de voar e de quanto as ruas o enchia de paz…

” eu uso os poemas para saber…”

e a folha que caiu tudo no dia seguinte era galho seco hoje…

A garoa dançava na luz difusa do poste e a lua era apenas um risco no céu. Enquanto todo mundo prevenia a liberdade de ontem e acreditava na injustiça de amanhã, eu apenas caminhava contra o vento e o frio.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Há dias…

em que acontecem milagres – aquele mesmo que o homem de ontem buscava e ria do destino brusco de ser leve – e que aparecia escrito no envelope pardo nas mãos.

E que depois disso contava histórias de imensidão de rios onde se perdiam nas ribanceiras onde nas margens os pássaros cantavam rotinas de florestas de histórias de ler… e as cachoeiras cantavam o chuá, chuá e as aves eram parte do cenário que ficou guardado…

Há dias em que alguém chora de dor e conjuga os verbos no passado, só para respirar o ar que falta e as canções gravam na mente o instante simplificado no refrão.
(chuá… chuá…)

Há dias em que sonhos se realizam e as testemunhas registram momentos que a memória desenhará para o resto dos dias e será contados em cada reunião que mais de um se lembrará e confirmará presença e a pergunta ecoará: você se lembra?

As gaiolas se abrirão e o que era preso voou… e as cartas eram escritas no modo antigo, e os envelopes decorados com cores que celebrava a amizade.

Os corações, nesses dias, se encherão de esperança e os corredores ganharão as cores da cura e a ave verá na poça da chuva um rio fácil de atravessar.

Haverá dias assim. Houve.

Hoje.

Mariana Gouveia