Cuiabá, na hora em que o calor cede espaço à noite…
Bambina mia,
A sua missiva atravessou o breu morno de outubro e me fez tatear, no escuro, as minhas próprias paredes. Ler sobre o abalo sísmico que aquela pergunta provocou em você me fez olhar para os canteiros do quintal em silêncio. Há um conforto imenso na neblina que cobre o que fomos; afinal, fingir que certas dores pertenceram à biografia de um estranho é a nossa forma mais antiga e humana de sobrevivência. O vazio sensorial é um barco macio, mas a escrita teima em nos cobrar o chão. Aqui quase não tem neblina — ou smog — como em Londres. Poucas vezes vi um vasto nevoeiro tomar conta do meu lugar. Eu fiquei fascinada, mas tremia de frio. Não vi além do piso amadeirado da varanda.
Você fala de perder-se de si mesma pelas calçadas urbanas, guardando apenas o cheiro da flor de laranjeira ou o tato do papel para guiar o retorno. Por aqui, a pele também guarda caminhos que a mente às vezes hesita em acessar. O corpo sabe do chão de terra batida muito antes de a memória conseguir organizar as datas. O que chamamos de esquecimento é apenas o tempo descansando debaixo de uma fina camada de poeira. Às vezes, não é não lembrar… É não esquecer… É confuso, eu sei… Lembrei-me de Caetano agora.
Abrir a Caixa de Pandora ou erguer a tampa de um baú antigo exige um fôlego que nem sempre temos ao amanhecer. Mas você tem toda razão, bambina: se o baú está ali, portão adentro, é porque em algum quadrante do tempo o gesto precisa acontecer. A literatura não se faz com linhas retas e intocadas; ela nasce justamente do rastro que deixamos quando decidimos enfiar as mãos na terra úmida para arrancar o que sufoca ou para replantar o que restou.
Se a sua alma derrapa diante da consciência de lembrar, a minha escrita se senta ao seu lado no banco desse “não-lugar”. Não tenha pressa em dissipar a neblina que é persistente aí. Algumas coisas escapam para que a gente tenha o prazer de reinventá-las em prosa, versos ou poesias. As minhas mãos continuam firmes, exalando o aroma das ervas simples e oferecendo pouso para quando precisar.
Bacio,
Mariana Gouveia

Tem escritos (respostas) que são a essência do silêncio e da quietude, pedem uma xícara de chá e como sou uma criatura ouvinte, atendo. Hoje vai ser de maçã, cidreita e canela.
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